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Por Paulo Albuquerque
Depois que comecei a lecionar Artes Marciais, percebi que muitos de meus alunos vinham a mim para procurar soluções para seus problemas pessoais.Hoje em dia, depois que comecei a lecionar Arnis de Mano, sendo o único
autorizado a fazer isso, a frequência aumentou. Mas, sinceramente, não concordo com este tipo de atitude de me ver como um Guru no sentido fantasioso das coisas - não considero esta a maneira certa de pensar.
Depois do advento da TV, e do grande "boom" dos filmes de artes marciais de categorias de A ou Z, as pessoas tendem a ver o Mestre de Artes Marciais como se fosse um guru indiano, alguém que pode, com poucas palavras ou com o silêncio no momento correto, resolver qualquer problema, ou dar um conselho
fantástico para o aluno sem esperanças. Mas não existe, na verdade, paralelo no universo real.
Mestres de artes marciais são técnicos em Artes Marciais - estudam e praticam a sua arte por anos a fio, até chegar a um entendimento perfeito (ou quase) de suas técnicas, e somente isso. No entanto, ninguém garante que este técnico seja, na realidade um imbecil que só sabe fazer isso. Conheço muitos "Mestres" de artes marciais que são na verdade, o oposto do que pregam. Em toda a minha vida, já soube (em alguns casos presenciei) mestres venderem diplomas, beberem até cairem, sairem com mulheres da noite, e por ai vai - mas tentam esconder isso de seus alunos, como se fossem algum tipo de super-homem ou na verdade, "super-mestres", usando uma máscara mais do que fantasiosa.
O mais engraçado é que as pessoas separam, por exemplo, um treinador de boxe de um mestre de artes marciais - de acordo com o raciocínio comum, o treinador de boxe não seria uma pessoa culta, mas o mestre de artes marciais sim. Na verdade, o melhor conselheiro que tive em toda a minha vida foi uma das pessoas que me treinou no boxe - mas já recebi os conselhos mais imbecis, tendenciosos e fascistas de pessoas que se intitulam mestre.
Acredito que a TV tenha desenvolvido um árquétipo de "mestre de artes marciais" que é na verdade, um grande dano para a mente de muitas pessoas, principalmente os mais novos. Imagine, por exemplo, um adolescente pedir conselhos a um mestre que não sabe o que é certo, ou que sua experiência vem de livros de bolso de auto-ajuda?
O arquétipo de Mestre é uma coisa tão forte, que já vi faixas-pretas brasileiros imitarem o sotaque de mestres estrangeiros no seu dia-a-dia só para se sentirem mais mestres. É ridículo. Imagine um brasileiro falando como um japonês ou coreano, ou um compatriota nosso falando português errado só para parecer que é "mestre"?
A fantasia dos praticantes de artes marciais está indo longe demais com tudo isso.
Não acredito que ninguém, depois que me tornei adulto, possa me dar conselhos excepcionais que não tenha recebido de meus pais quando criança. E acredito que todos sejam assim. Podem, no entanto haver mestres que tenham experiência pela sua idade elevada - mas esperar que alguém de 20-40 anos saiba muito sobre a vida a ponto de ser um "mestre sabe-tudo", é querer demais.
Acredito que ouvir os mais velhos, ou pessoas que passaram por experiências semelhantes a nossa seja algo benéfico - mas não acredito em pessoas que se acham "super-mestres" - estes são, realmente as pessoas que mais precisam de ajuda psicológica.
Paulo Albuquerque
P.S.: A palavra Guru, ou Guro, seu derivativo em outras línguas, significa apenas professor em sãnscrito - um professor de português é Guru de Português, e só isso. Ninguém espera que o Professor de português saiba levitar. Certo?
PAULO ALBUQUERQUE