AS ARTES MARCIAIS - Uma história complexa (parte 2)

 

Por Mestre Paulo Albuquerque

Parte 2 - CHINA

A China, ou “Império do centro”, que é que o seu nome quer dizer, era um pais imenso, continental cercado de inimigos por todos os lados. Esse é o motivo da construção da grande muralha, conhecida como muralha da China.

Até o século IV a.C., a infantaria era praticamente decoração nas batalhas. A maioria dos soldados da época lutavam com lanças e espadas, mas também bestas que eram armas para distância (que os chineses inventaram, assim como a Pólvora) e também carruagens.

A China já tinha recebido influência da Índia. Além do taoísmo de lao-tsé e do confucionismo que já existiam há séculos, já estava lá o Budismo –religião oriunda da Índia. Os monges budistas da época tinham uma mentalidade que dizia "Nós não somos este corpo". Sendo assim, ficavam sentados horas em posição de meditação, mas não conseguiam ir ao seu máximo, pois o corpo frágil não permitia que eles continuassem. A lenda conta que:

Neste momento, aparece no quadro Bodhidarma, um monge indiano, trigésimo oitavo patriarca do budismo, que veio introduzir sua doutrina no pais. Lá ficou conhecido como "Ta Mo". Sua doutrina, chamada de "Cha´n" na China, passou a se chamar Zen no Japão, em um futuro distante. Bodhidharma era da classe dos Ksatryas, então sabia artes marciais, sabia lutar. É por isso que as artes marciais fazem parte do sistema Zen de vida.

Logo, Ta Mo percebeu que havia algo errado na mentalidade dos chineses –o corpo e a mente eram uma coisa só, e assim o corpo também precisava de cuidados. Ta Mo desenvolveu então uma cadeia de 18 movimentos chamados de 18 mãos de Lo-han (um Deus chinês).

De fato, não há nenhuma comprovação da existência deste personagem, Bodhidharma. Ele pode ser apenas um mito.

De fato, também, esses movimentos foram inventados bem depois por um monge que saiu do mosteiro shaolin e conheceu um outro mestre de artes marciais. Juntos eles fundaram estilos e criaram o primeiro documento original sobre kung fu. e estamos já no século XII, XIII... Bem depois do suposto Ta Mo.

Esta coreografia, inspirada nos movimentos de Shiva Nataraja da Índia, provavelmente originou as formas das artes marciais (Kata, Kati, Hian, Pumse). Estes movimentos foram usados para desenvolver a forma física dos monges e eram misturados a movimentos das artes de combate da índia.

Anos mais tarde, outro monge ampliou os movimentos para 108, por sinal um número místico para os indianos. Note que a Japa-mala (terço) dos monges tem 108 contas.

Os Templos Shaolin (Shao Lin significa "Jovem Floresta") desenvolveram o budismo cha´n completo, incluindo os movimentos de Lo-han. Alguns monges foram desenvolvendo suas próprias formas, baseadas em elementos da natureza ou animais. O elementos mais comuns eram Metal, Madeira, Ouro, Terra. E os animais eram Dragão Mítico, Tigre, Pantera, Garça, gafanhoto, macaco.

Devido à influência da Índia, os movimentos não apenas mostravam exercícios e técnicas de combate, mas também deviam ser harmoniosos e belos. Se inspirando nos Mudrás do Yôga, os monges criaram também diversas posições de mão, não apenas para atacar, mas também para ativar no lutador a imagem daquele animal ou elemento.

As respirações "Pranayama" do Yoga dos drávidas foi modificada até desenvolver exercícios de respiração baseados em força. Nem todos os monges adotavam isto, mas era uma prática comum. Como os movimentos tinham repetição, ao contrário do exercício original do Yoga, não continham exatamente os mesmos benefícios, mas melhoravam a força muscular e a concentração.

Assim, as artes chinesas de dentro do templo começaram a ficar diferentes das artes que existiam fora das paredes. As artes de fora do templo eram mais simples, eficazes e diretas (o descendente mais próximo, provavelmente, é o estilo Suai Chiao), e as Artes de Shaolin eram mais belas e plásticas. Mas como os monges tinham que ficar lá presos durante o período mínimo de 15 anos (isso é provavelmente um mito) e lutar era um dos poucos passatempos, a arte se desenvolveu muito.

Nem sempre os internos se especializavam nos aspectos de defesa e ataque das artes marciais, mas muitas vezes só treinavam as atividades que fossem de concentração, ou demonstração.

Logo, os monges que viviam reclusos ficaram famosos não só pelos feitos atléticos, mas pela aura de mistério. Como os monges tinham muita ideologia, logo os governantes resolveram se livrar destes mitos vivos: mandaram queimar o mosteiro Shaolin original.

Cinco monges, cada um com seu estilo próprio de lutar, fugiram. Para sobreviver, começaram a ensinar suas artes para o público normal.

Durante o período song (960-1280) existiam varias associações civis e militares de artes marciais. Shaolin só ficou famoso por dois motivos: primeiro, por virar um grupo de elite que só se dedicava ao treino: segundo, que quando as artes marciais foram proibidas durante os Qing (1644-1911), eles foram alguns dos que cnseguiram preservar a tradição com maior segurança.

Hoje, os mosteiros Shaolin sobrevivem muito as custas do marketing histórico. Muitas pessoas vão lá e pagam para ser treinados pelos monges, mas as técnicas nem de longe têm a utilidade que tinham na época, naquela situação. Há muitas demonstrações que se assemelham mais a um circo do que a uma arte de combate. Demonstração de empurrar carros com vigas no pescoço, e muitos outros truques.

Devido ao terreno seco, os lutadores da região norte do país desenvolveram técnicas mais plásticas, com chutes mais altos. No sul, devido ao chão extremamente húmido, as técnicas se basearam em técnicas de mão. Com bases mais abertas, socos mais fortes e com quadril baixo.

Alguns estilos chineses ainda se especializaram em técnicas internas, fosse somando o conhecimento oriundo dos Drávidas dos Chakras (pontos de energia), utilizando-os para combate, ou simplesmente para a saúde, criando movimentos como Tai Chi (Yoga em Movimento), que é influenciado pelo Taoísmo.

Segundo o comitê de artes marciais da china comunista a divisão correta é:



Como este país tem grandes espaços amplos e a vida era basicamente rural, as formas podiam ser imensas e ocupar grandes espaços, algumas vezes com 20 ou mais metros quadrados.

Os estilos de artes marciais chinesas são cerca de 2000. Todos praticamente eram estilos de família, passando de pai para filho durante gerações e gerações. Quando as famílias se uniam, muitas vezes um estilo se enriquecia ou outro estilo nascia pela fusão natural das técnicas.

A característica geral dos estilos chineses é a existência de formas (coreografias) e 99% dos estilos são baseados em movimentos animais, com praticamente todos os golpes em pé, evitando lutas no chão.

Erroneamente, os estilos chineses foram chamados pelos ocidentais de Kung Fu (habilidade, um elogio feito quando a pessoa se dedicava muito a uma determinada tarefa). O nome correto é Wu Shu, ou Kuo Shu. Atualmente Wu Shu se tornou nome de campeonato de formas, e Ku Shu parte de combate.

Os chineses inventaram também o filme de Kung Fu. Apesar de não ter a qualidade técnica dos americanos, estava anos a frente em termos de coreografia. Grandes Astros como Jackie Chan, que não utiliza dublês, ou Jet Li começaram fazendo apenas filmes chineses.

No próximo artigo, vamos viajar por Japão, Coréia, Indonésia e Filipinas.

(obrigado a André Bueno pela cessão de material - abueno@esquadro.com.br)

Se quiser saber mais sobre este tópico, veja: www.orientalismo.cjb.net* * *


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