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AS ARTES
MARCIAIS - Uma história complexa (parte 4)
Por Mestre Paulo Albuquerque
OKINAWA
Okinawa é uma pequena Ilha localizada entre a China e o Japão, mas com grandes
influencias na nossa história por duas razões:
Esta Ilha é a verdadeira pátria do Karatê – moradores de Okinawa simplificaram
as técnicas de Kung Fu do sul da China que eram trazidas pelos mercadores. Por
exemplo, pegaram o Kung Fu Hung Gar, um dos mais conhecidos, e fizeram um
resumo, mantendo as bases abertas e baixas e a maior capacidade de socar.
A segunda razão é que, como colônia do Japão, os moradores de Okinawa não
podiam portar armas de lâmina. Então desenvolveram técnicas de combate
utilizando objetos do dia a dia como armas: remos, prendedor de cabelo (as
adagas Sai), Nunchaku e Tonfa (utensílios para colher arroz), bastões de
comprimentos diversos (Jo e Bo) e ancinhos, ou naginatas. Estes últimos, só por
curiosidade, eram usados especialmente por mulheres para se defender.
JAPÃO
O Japão merece um capítulo imenso, devido a quantidade de estilos, símbolos e
termos que foram eternizados nas artes. A organização das artes marciais, e
como elas são vistas pelo mundo, devem muito a este pais.
Símbolos e mitos como o Samurai, o Ninja, as espadas mágicas, demônios, faixas
coloridas, faixa-preta, kimonos e palavras como dojô, tatami, foram todos
criados lá.
Falar sobre o Samurai seria uma perda de tempo, já que esta é uma informação
facilmente encontrada em qualquer publicação.
E também resta um comentário importante sobre os ninjas. Eles nunca foram
heróis, como a atual mitologia inventada pelos norte-americanos em filmes como American
Ninja, ou Ninja a Máquina Assassina nos fazem crer. Ou ainda como os
atuais mestres de Ninjitsu querem nos vender. Eles eram bandidos que atacavam
sempre em bando e pelas costas. E para uma sociedade na qual as pessoas
duelavam de frente, atacar pelas costas, ou por envenenamento, eram uma
demonstração de covardia. Resta comentar também que os Ninjas vinham das
classes sociais mais baixas do Japão.
É interessante dizer que os Ninjas aproveitaram de forma diferente os
"mudrás", criados pelo povo hindu. Mudrás são posições de mão para
mexer com os arquétipos do subconsciente. Criaram algumas formas inclusive para
poder compatibilizar o inconsciente com o Zen.
A característica mais comum entre todos os estilos japoneses é se basear em um
ataque único. Karatê, Judô, Aikidô, Ninjitsu e Jiu-Jitsu se baseam em
contra-ataques contra um ataque único, e de um único oponente, e procuram
também o derrotar com um único golpe. Isso vém do tempo em que os adversário
podiam ser mesmo mortos com um golpe só –só que perpretrado por uma espada
forjada centenas de vezes.
Dependendo do professor de Karatê ou Judô, pode-se ter ou não instruções
religiosas –mas Kendô, kenjutsu, e Aikidô são sempre associados a religião.
Aikidô é indissociável do Xintoísmo. Kendô e Kenjutsu, do espírito Zen.
Os japoneses criaram também as artes marciais em "massa". Todos os
praticantes lutam exatamente iguais, quase sem espaço para individualismos.
Todos devem seguir a forma e o pensamento do criador.
JIU-JITSU é na verdade não uma, mas diversas artes muito diferentes. Há o
Jiu-Jitsu que é basicamente de golpes traumáticos e os estilos feitos
basicamente para chão, alguns de torções etc.
O JUDÔ, criado pelo Mestre Jigoro Kano, é um resumo do Jiu-Jitsu antigo,
especializando em técnicas de projeção e chão. Jigoro Kano criou, na verdade
dois “judôs”. O Judô Kodokan masculino e o feminino. De acordo com o próprio
Kano, a arte feminina era a perfeita, pois era mais técnica, sofisticada e
englobava muitas coisas além da defesa pessoal. No entanto, a história traiu
Kano quando colocou o Judô nas olimpíadas (ele era amigo pessoal do barão de
Colbertin). No início, como as Olímpiadas eram só para homens, o Judô feminino criado
por ele simplesmente desapareceu!
No entanto, como nas olimpíadas inicialmente era proibida a presença de
mulheres, o sonho de Jigoro de desenvolver uma arte feminina foi por água
abaixo –ele abandonou o projeto.
Devemos ao Judô algumas mudanças:
O KARATÊ foi uma arte criada em Okinawa com o nome original de
"Okinawa-te" e teve um crescimento imenso no Japão, devido a Gishin
Funakoshi, o homem que batizou a técnica. Se originou também do To-te, uma arte
simplista que era apenas socar paredes até deformar a mão. Isso se provou uma
absoluta ignorância com o tempo.
Há algumas curiosidades sobre isso: Karatê significava originalmente “Mãos (Te)
da China (Kara)”. No entanto, os Japonses não gostavam dos chineses e nem dos
Coreanos. Daí, Funakoshi procurou outro ideograma que tivesse o som “kara”, que
pudesse substituir a palavra China, encontrando a palavra “vazia”, com o mesmo
som. Mudou o Ideograma, e o Karatê que inicialmente se chamava “Mãos da China”
passou a se chamar “Mãos vazias”. Funakoshi era absolutamente contra
campeonatos, mas com sua morte Masatoshi Nakayama, seu principal aluno, traiu
este ideal em prol da divulgação do Karatê e seguiu o caminho do Judô.
Funakoshi assumiu que suas formas eram ruins, mas seus discípulos não tiveram
coragem de modificá-las. Assim, os Karatekas de hoje treinam sobre uma
plataforma de técnica que o próprio criador do estilo rejeitou! Funakoshi
pregava uma alimentação naturalista, meditação diariamente, e ensinava a seus
alunos a obediência ao “Dojo-kun”, regras que ele mesmo obedecia. Mas hoje,
como o karatê sobrevive graças ao esporte competitivo Karatê, tudo isso se
transformou apenas em passado.
Devemos ao Karatê:
O AIKIDÔ, que foi criado por Morihei Ueshiba, foi uma arte que também saiu do
Daito-ryu Aikijiu-jitsu, uma arte familiar, fechada em um clã. E elevou as
artes ao nível de terapia. Mas há algumas curiosidades:
Morihei Ueshiba fez muitos confrontos, mas na época lutava Daito-ryu, uma luta
extremamente violenta. Todos os discípulos dele se orgulham disso, no entanto,
Ueshiba não ensinava as técnicas do Daito-Ryu Aikijiu-jitsu – ensinava apenas
técnicas para harmonizar, como Tai Chi.
Morihei modificou sua maneira de lutar depois que entrou para uma seita
Xintoísta. Jigoro Kano, o criador do Judô, disse que o sonho dele seria
desenvolver algo como o Aikidô.
Apesar de se fundamentar em harmonia, os praticantes se separaram em diversas
organizações, algumas bem diferentes umas das outras.
CORÉIA
A Coréia, assim como o Japão, foi muito influenciada pela China e depois pelo
Japão. Isso é claro e transparente também no nome das suas artes. Tang Soo Do,
por exemplo, uma das artes coreanas mais conhecidas, tem seu nome relacionado
ao império do Centro.
Como a região é montanhosa, as pernas dos lutadores da região são muito fortes.
Daí, todas as artes coreanas, Kuk Sool Won, Tae kwon Do, Hap Ki Do, Tang Doo Do
etc. são fundamentadas em chutes. Os chutes eram baixos no início. Mas com a
melhora constante dos conhecimentos de educação física e método de treinamento
foram se tornando cada vez mais altos, incluindo saltos que renderam aos
coreanos o apelido de “homens voadores”.
Os coreanos copiaram os uniformes do Karatê, começaram a usar faixas coloridas
e a fazer formas.
Assim, KUK SOOL WON é um tipo de Kung Fu Coreano. HAP KI DO é um Aikidô com
chutes. O fundador do estilo, apesar de Coreano (os coreanos eram tratados como
lixo no Japão) foi o melhor aluno de Takeda, grande mestre de Daito-Ryu
Aki-jujutsu. E era colega de treino de Morihei Ueshiba, o criador do AikiDô.
Há ainda o TANG SOO DO um karatê Coreano. Ficou conhecido através do ator Chuck
Norris.
O que devemos às artes coreanas: Uma grande variedade de chutes, ainda maior do
que os chutes das artes do norte da China; Uma organização economicamente
viável, que incentiva as pessoas a se tornarem instrutores.
INDONÉSIA E FILIPINAS
De fato os estilos nestas regiões são extremamente semelhantes, mas na
Indonésia eles se especializaram em combate desarmado e nas Filipinas em
combate com armas como bastões e facas.
Devido a grande quantidade de metais bons para fazer lâminas, a cultura das
espadas e facas cresceu muito no arquipélago das ilhas Filipinas (7000 ilhas).
Ao se tornarem adultos, os homens recebiam facas longas, feitas especialmente
para eles. Daí nasceram as ferocíssimas artes de combate de faca filipino. É
bom lembrar também que facas e espadas, para o inconsciente coletivo, estão
diretamente relacionadas a virilidade, motivo pelo qual os garotos ganhavam as
tais lâminas.
Com a invasão dos espanhóis, os filipinos foram proibidos de usar armamentos,
mas escreviam em tagalog original (lingua tribal) nas paredes e criaram
diversos exercícios que pudessem ser escondidos como dança. O mesmo aconteceu
na Indonésia, mas sem a utilização das armas.
Nas Filipinas, como as armas de corte foram proibidas, começaram a utilizar
bastões com a mesma finalidade, e observando os espanhóis treinando Esgrima,
aumentaram seu leque de conhecimento. Já naquela época, os espanhóis tinham
absorvido as técnicas de Esgrima Italianas.
Devemos às Artes Filipinas:
TAILÂNDIA
A tailândia, aparentemente sem influência direta de nenhum outro pais, já havia
desenvolvido duas artes –Krabi Kabong e o Muay Thai– conhecido como Boxe
Tailandês. Os lutadores chutavam, davam joelhadas e caneladas. Sempre há uma
dança prévia onde os lutadores se concentram tentando espantar os maus
espíritos.
Com influência da Inglaterra, os golpes do Boxe inglês foram adicionados, assim
como luvas. Isso não apenas aumentou o arsenal de técnicas como tornou a luta
menos selvagem, pois as pessoas passaram a se socar com luvas. Até aquele
tempo, utilizavam panos imersos em resina e depois mergulhados em vidro. Assim,
a luta se tornava muito mais sangrenta.
As Artes tailandesas nos deram:
No próximo artigo, nossa viagem pelo mundo nos leva à Europa e, por fim, nos
traz ao Brasil.
(obrigado a André Bueno pela cessão de material - abueno@esquadro.com.br)